MENUMENU

Entrevista


Paulo Furtado + Edgar Pêra

Um músico e um cineasta. Paulo Furtado e Edgar Pêra. O cine-concerto, a partir de contos de H.P. Lovecraft, mostra-se ao público, de forma embrionária, no MOTELx.


© João Torgal/ Arte-Factos

“É mais do que um filme-concerto. Isto é live cinema”. As palavras de Edgar Pêra pretendem mostrar que, no caso, música e cinema são uma só entidade e o espectáculo vai incluir transformação de imagens ao vivo. “Os meus cine-concertos têm um lado espontâneo e irrepetível, o que torna o momento muito mais interessante”, acrescenta. A música vai ser composta por Paulo Furtado, mas 3D LOVECRAFTLAND está ainda numa fase embrionária.

A ideia partiu do cineasta, com dois objectivos. Primeiro, pegar na literatura fanstástica H.P. Lovecraft. “Não vai ser uma ilustração dos textos do Lovecraft, mas uma interpretação”, garante Edgar Pêra, que, em filmes anteriores, já usou alguns excertos deste escritor norte-americano do início do século XX. Mas destaca que há um objectivo de autenticidade: “a única forma de respeitar o Lovecraft é dizendo os textos dele”. Segundo objectivo, a parceria: “Já há muito que andava a chatear o Paulo para fazermos algo ao vivo”. Um trabalho com Furtado diferente, depois dos videoclips de Masquerade e da colaboração no filme Caminhos Magnéticos.

Quer como longa-metragem, quer como cine-concerto, 3D LOVECRAFTLAND está ainda a ser construído e só deverá estar pronto no início do próximo ano. Para já, no MOTELx, vão ser apresentados uns pequenos excertos, à boleia da apresentação do livro Os Contos Mais Arrepiantes, de H.P. Lovecraft. Aliás, as rodagens estão a começar e a composição musical está ainda a dar os primeiros passos. Quanto a isso, desengane-se quem espera algo próximo dos WrayGunn ou mesmo de Legendary Tigerman. A aposta vai ser mais experimental, através das sínteses modulares. Paulo Furtado explica: “Quero começar todos os bocados de música com uma corrente eléctrica, num sítio obscuro, e, no final, voltar a esse sítio e recomeçar de novo.  Pareceu-me mais interessante do que pegar numa guitarra ou mesmo em sintetizadores com um som pré-definido”.

As tonalidades obscuras da música juntam-se ao terror, que Edgar Pêra já explorou em O Barão ou na curta A Caverna. Seja como for, Edgar Pêra prefere falar em “imaginário” e nega uma ligação directa ao fantástico: “Nunca me passou pela cabeça fazer filmes fantásticos com poucos meios. Cada vez que apresentei projectos no âmbito do fantástico, foram sempre chumbados”. Tal como os anteriores, 3D LOVECRAFTLAND também vai ser “low, low budget” e o cineasta remata: “mais vale ir para a poesia do que para o romance”.

Pêra tem alternado a aproximação ao terror com o humor descomprometido, em filmes como Virados do Avesso ou Delírio em Las Vedras. Para o realizador, a versatilidade é natural e justifica-a até com uma certa portugalidade: “Não é por acaso que Fernando Pessoa é o grande herói literário português. Só se formos políticos é que temos de manter uma certa fachada.”

Paulo Furtado é um bom exemplo de diversidade artística. Será o cinema um escape? O músico não dá uma resposta directa, mas enquadra-a no caminho cinematográfico: “Faço cada vez mais bandas-sonoras que não têm, sequer, uma guitarra. E nesta duvido que vá haver”. Ainda não tem nome, mas pode estar a nascer um novo alter-ego: “”Se calhar existe aqui uma nova persona que tem que ser criada”.

A ligação de Paulo Furtado ao cinema não se faz só através da música. Um exemplo: está em fase de montagem Amor Quântico, uma curta-metragem escrita e realizada por Furtado, a primeira sem nenhuma ligação à música. Compositor, argumentista, realizador e também actor. Aliás, ainda recentemente o vimos em Ruth, sobre o esquema que desviou Eusébio para o Benfica. Mas, há um mas sobre os trabalhos de interpretação: “As partes de actor tento sempre recusar porque sou péssimo actor. Mas ser pai do Eusébio não podia recusar” (risos). Fica o desafio: ir ao google, pesquisar “pai do Eusébio” e ver qual é a primeira imagem.

NOTA: O lançamento de Os Contos Mais Arrepiantes de H.P. Lovecraft decorrerá a 6 de Setembro no MOTELx (Cinema São Jorge, Sala 2) e contará a presença de Edgar Pêra e Paulo Furtado. A entrada é livre.


sobre o autor

Joao Torgal

Partilha com os teus amigos