MENUMENU

Dez Takes: Momentos do Universo Marvel no Cinema

por Bruno Ricardo em 23 Abril, 2018

Com a estreia de Avengers: Infinitiy War, o estúdio Marvel fecha um ciclo iniciado há quase dez anos com o primeiro Iron Man. O que parecia uma aposta arriscadíssima de planeamento a longo prazo, de filmes encadeados uns nos outros com uma história contínua de forma a juntá-los todos num grande evento, veio a revelar-se no golpe deste século e numa mudança de paradigma na maneira como Hollywood faz dinheiro. Não há estúdio que não o tenha tentado, desde as opções mais óbvias (o universo cinematográfico da DC, que neste momento espera algo, talvez um desfibrilhador) até às que provocam espasmos de riso (quando a Universal tentou reunir os seus monstros clássicos num só filmes, com Russel Crowe a servir de Nick Fury, a ansiedade de conseguir um dólar fácil foi palpável). A Marvel não criou o modelo, este já existia na Banda Desenhada; mas aplicando-o a uma arte completamente diferente, e com alguma lógica de serial televisivo, mudou por completo a maneira como o cinema comercial se mexe.

A revolução teve o seu lado bom e o seu lado mau, mas não é nisso que o Dez Takes deste mês se focará. Dez anos trouxeram-nos dezanove filmes, cada um deles um bloco no edifício do Marvel Cinematic Universe (MCU). Este mês, vamos destacar uma dezena de momentos, uns mais icónicos e outros mais discretos, todos eles envolvendo os vários personagens que fazem parte do MCU e que se vão tornando referência para os apreciadores da cultura popular. Regra a reter: apenas vou usar os filmes produzidos pela Marvel, não filmes baseados em propriedades Marvel. Isso exclui as produções da FOX, da Sony e da Universal, o que me faz suspirar de alívio porque ficam de fora trampas como Daredevil ou qualquer filme do Fantastic four. Ufa. Vamos a isso.

 

#1 "I am Iron Man"

A cena final, em que Nick Fury anuncia à audiência que se avizinham os Vingadores, é seminal na criação deste universo; mas Robert Downey Jr. é o verdadeiro pai do MCU. Hoje em dia ninguém se lembra, mas tudo neste filme era um risco: Iron Man era um personagem de segunda linha de uma empresa que vendera as suas principais propriedades anteriormente por risco de falência; Downey vinha de ser estrela no filme “Quanto mais droga no nariz, melhor”, em exibição nas prisões californianas, e este era o primeiro filme independente da Marvel. O realizador Jon Favreau não era de todo uma aposta evidente, mas o resultado foi a grande surpresa de 2008 e o principal motivo foi Tony Stark, arrogante e sarcástico, orgulhoso e com falhas, um homem que usa do seu génio de mecânica para tentar consertar a vida. Actor e personagem casam como raramente se viu e o momento em que Stark anuncia ao mundo o seu alter-ego, desafiante e com swag capaz de criar tsunami, mostra que acima de todo o espalhafato, estes filmes são sobre personagens e marca um tom bem diferente de outros filmes do género até então.

#2 "The star spangled man with a plan"

Captain America tem o mais interessante percurso deste universo, passando de um simples escuteiro americano à medula até alguém que questiona os valores e compromissos morais do seu país. No seu primeiro filme, no entanto, somos lembrados do espírito da década de 40 nos EUA e o contexto em que Steve Rogers, o all american hero, se move. Este número musical escrito por Alan Menken, o autor de todas as canções de The beauty and the beast, é uma pausa estranha no meio do filme, mas faz todo o sentido: nostalgia e sátira cruzam-se num momento em que Joe Johnston nos recorda de um certo patriotismo norte-americano, bacoco mas genuíno, que levou à criação inicial do personagem. No contexto do filme, é também o momento de transição de Rogers, que deixa de ser um fantoche em palcos para assumir o seu destino e o que mais ambiciona: ajudar os outros. Ainda que, desta vez, o acompanhamento de fundo tenha muito poucas plumas e lantejoulas.

#3 "I'm always angry"

Joss Whedon recheou The avengers com humor e momentos icónicos, uma das principais razões a que se deve o monumental sucesso financeiro da reunião das principais franchises da Marvel na altura. A lista podia ser quase toda sobre este filme: o eye roll destinado a meme de Tony Stark; o confronto entre Thor, Iron Man e Captain America; o plano que reúne os sete heróis antes do grande final começar a sério; a cena que nos introduz Black Widow. Mas é Hulk a grande estrela do filme, não só porque Mark Ruffalo dá um ar goofy ao alter-ego Bruce Banner, mas Whedon também o coloca em momentos que assentam bem nos seus poderes. É tentador escolher o infeliz encontro entre o monstro esmeralda e o Deus da Trapaça Loki, mas a minha recordação de ver o filme no cinema começa sempre por esta cena. Durante todo o filme, a raiva de Banner é sempre um problema pendente, aludindo-se a um segredo que lhe permite controlar a transformação. Quando a batalha final chega, o segredo é revelado. Na sala de cinema onde assisti, toda a gente irrompeu em palmas e risos quando uma força irresistível encontra um objecto inamovível e perde.  A revelação faz zero sentido, mas virou meme e ainda hoje continua um dos momentos mais épicos de todo o MCU.

#4 "Come and get your love"

A linguagem da BD implica sempre uma grande economia na introdução de um novo personagem. O momento deve ser curto, mas marcante, revelando de imediato os seus traços principais. Em Guardians of the Galaxy: vol. 1, James Gunn mostra como se faz logo no início do filme, quando nos apresenta o principal dos seus guardiões. A partir do momento em que este humano perdido nos confins do universo liga o seu walkman e o carisma e auto-confiança são automáticos. É o Singing in the rain cósmico. O movimento de ancas, o desconhecido como o seu recreio e as letras amarelas descomunais que anunciam o nome do filme sem pudor. O momento mostra que a sensibilidade e humor do filme são diferentes do que estávamos habituados no MCU, com as suas influências evidentes de um certo psicadelismo e espírito livre dos anos 70 e introduz-nos Peter Quill, o homem criança que será o nosso representante em todo o filme, abrindo também um novo universo para explorar.

#5 "You are not worthy"

Avengers: Age of Ultron é filme aceitável, embora com falhas que se devem a ter-se mais olhos do que barriga. No entanto, mantém um tom geral de diversão irresistível e para lá das explosões, Joss Whedon centra-a no que conta e naquilo que nos leva a ver este filmes: personagens. Para lá das explosões, a grande cena do filme fecha os heróis no mesmo espaço numa competição amigável: quem consegue erguer o martelo de Thor? É uma das perguntas do mundo Marvel que os fãs discutem e aqui, todos os Vingadores têm a oportunidade de saber quem é digno o suficiente para erguer a ferramenta que Odin ofereceu ao filho. Quando Captain America quase consegue o impossível, o arrogante Thor treme e é um momento tão revelador como qualquer monólogo épico. A cena é descontraída e de construção de personagem, que parece inofensiva, mas é recuperada de maneira memorável quando perto do terceiro acto nos é introduzido um novo personagem, cuja confiança é estabelecida a partir desta disputa.

#6 "HYDRA created a world so chaotic that humanity is finally ready to sacrifice its freedom to gain its security. Once the purification process is complete, HYDRA's New World Order will arise. We won, Captain. Your death amounts to the same as your life, a zero sum!"

Captain America: Winter soldier continua a ser um belo filme de espionagem e mostra outro dos segredos do sucesso do MCU: apesar de envolverem super-heróis e terem uma fórmula que muda pouco, são acima de tudo filmes de género e é isso que os faz aparentemente diferentes entre si. Este bebe muito do thriller paranóico da década de 70 (Robertd Redford aparece para que ninguém se engane) e a mistura entre acção realista e intriga política apertada torna-o consistente. Tem também os seus momentos de subversão, o maior deles a revelação do twist principal: a HYDRA não foi derrotada e infectou a SHIELD a tal ponto que os últimos anos da história americana foram coordenados por nazis para um único objectivo – o caos. É uma ideia incrivelmente polémica exposta num filme de grande audiência, ao ligar intimamente o comportamento de um governo e das suas ingerências noutros países a uma ideia de totalitarismo e Estado de vigilância. Isto numa obra onde o principal personagem é o símbolo dos valores americanos.

#7 "I can't get too excited"

Mesmo com todas as suas imperfeições, The incredible Hulk tem os seus momentos. Edward Norton é um competente Bruce Banner e a química com Liv Tyler faz-nos pensar no que seria este filme se o tempo de antena fosse dado ao casal de cientistas Banner/Betty Ross. Há destruição e Tim Roth em modo bicho, o que nunca é de desprezar, mas tudo resulta melhor quando os amantes condenados fogem e vivem aventuras. Lembra-nos que o poder de Hulk é péssimo para se ter uma vida pessoal, desde a mais simples das interacções com outros até aos momentos mais íntimos. O par esteve sem se ver durante anos e quando finalmente se encontram, a libido quase dá para se esculpir estátuas. No momento em que ficam fechados num quarto de hotel, todos sabem no que vai dar. Só que… não. O ritmo cardíaco de Banner sobe e o resultado é-nos óbvio. Um momento pequeno, mas revelador e divertido, do maior empata-pinanço que pode existir.

#8 “Sorry, Tony, but he’s my friend” / “So was I”

Apesar do nome, Captain America: Civil War parece mais uma versão Avengers 2.5 do que um terceiro filme do bandeirante norte-americano. Mas o centro da intriga é mesmo um conflito ideológico entre Tony Stark e Steve Rogers a propósito do que significa ter poderes num mundo político complexo como o nosso… e em como isso desemboca na mais emblemática cena do cinema de super-heróis até agora: uma escaramuça entre amigos no aeroporto de Leipzig entre grupos de heróis divididos a meio à conta de uns acordos. O iconismo da cena faz-nos esquecer uma outra perto do final, menos espalhafatosa, mas muito mais marcante: Stark descobre a verdade sobre o Soldado Invernal e a amizade entre o Capitão e o homem dos fatos metálicos não mais será a mesma. É uma cena de pancada mais crua, emocional e onde a ideia de que estes filmes giram em torno de efeitos visuais e pouco mais se desvanece rapidamente. Esta primeira década da Marvel assenta naquele que foi sempre o maior trunfo da Casa das Ideias: gente que tem poderes, mas pés de barro e é problemática e faz asneiras como nós. Tudo decorre mais à conta disso do que de tudo o mais.

#9 “Dormammu, I came to bargain”

Durante algum tempo, os finais dos filmes Marvel eram tão previsíveis quanto ver uma bola cruzada para a grande área do Benfica sabendo que as luvas de Varela haviam sido barradas com manteiga: ataque aéreo, um inimigo sem cara, raios para cima e para baixo e destruição maciça. Na sua fase 3, o MCU tem tentado resolver o problema com algumas alternativas criativas: Ant-man transforma o comboio Thomas no palco de batalha de uma guerra minúscula que coloca em perspectiva o impacto das acções do herói; o terceiro Thor é algo de que falaremos à frente; e o mais inventivo clímax de um filem Marvel chegou-nos com Doctor Strange, que dá o melhor uso possível ao misticismo do herói. Usando os poderes de uma relíquia que lhe permite controlar o tempo, Strange confronta-se com a mais poderosa entidade vista até agora no MCU, Dormamu, uma espécie de papão inter-dimensional. O desenlace não só revela a sua inteligência, como também o crescimento de Strange ao longo do filme e cumpre assim dois propósitos de uma só cajadada. Para além disso, temos Cumberbatch contra Cumberbatch, o que é batcheet craze!

#10 “What are you the god of again?”

Thor foi transformado do mais aborrecido Vingador numa espécie de bobo residente do universo Marvel no cinema. Demasiado tempo na terra deu-lhe um sentido de humor que quase se diria pós-moderno e uma capacidade sem fim de se expôr ao ridículo sem nunca perder o bom aspecto de Chris Hemsworth e a assertividade heróica. Agradeça-se a Taika Waititi, que veio salvar o personagem do abismo do aborrecimento; no entanto, para além do humor, Waititi concedeu a Thor: Ragnarok muitas outras benesses. Podíamos aqui falar do combate entre Hulk e Thor, mas o momento em que o filho predilecto de Odin lança o pai de todos os relâmpagos contra a sua meia-irmã Hela inicia uma sequência absolutamente delirante, com imagens icónias e um sentido de ritmo, ajudado pelos Led Zeppelin, fundindo quase tudo o que no MCU leva gente ao cinema: uma piscadela de olho ao público ambientado com super-heróis, momentos épicos de esmurrar o ar e gente com quem nos podemos relacionar nos pontos altos e baixos, a quem o heroísmo não rouba a humanidade.


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Bruno Ricardo

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