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Dez Takes: Escândalos sexuais da indústria do Cinema

por Bruno Ricardo em 3 Novembro, 2017

O mais recente escândalo sexual envolvendo Harvey Weinstein veio relembrar os cinéfilos de que o Cinema não é apenas uma fábrica de sonhos e magia, mas também uma fábrica trituradora de pessoas e ambições. Pessoas, neste caso mulheres, são usadas e abusadas a partir de posições de poder e ainda que durante décadas tenho vigorado um código de silêncio que impedia o conhecimento destes casos, ocasionalmente surgiam nos jornais referências a a crimes de natureza sexual ligados a pessoas que trabalhavam na indústria do cinema. O Dez Takes deste mês recordará alguns dos mais conhecidos. Visto que este tema é sensível, salientam-se duas coisas: em primeiro lugar, a ideia não é o sensacionalismo e a acusação fácil – sempre que houver margem de dúvida, esta será reconhecida; em segundo lugar, não estamos a fazer o jornalismo, mas uma mera compilação de sumários. Recomendamos a quem queira uma informação mais detalhada uma pesquisa posterior.

Posto isto, vamos então recordar dez escândalos sexuais que ficaram infames na História do Cinema.

#1 Fatty Arbuckle

Começamos por um dos mais conhecidos e antigos. Apesar de hoje pouco recordado o actor cómico Roscoe “Fatty” Arbuckle era talvez a principal figura de comédia no cinema da década de 1910. Para além de ter sido o mentor de Charlie Chaplin, descobriu, entre outros talentos, Buster Keaton e Bob Hope. Todo este sucesso terminou em 1921, quando, depois de uma festa, foi acusado de ter violado, numa festa em Hollywood, a actriz Virginia Rappe, que viria a falecer pouco tempo depois de ferimentos derivados da suposta violação. Apesar de não haver qualquer prova do caso a não ser o relato de uma amiga de Rappe, a voraz máquina jornalística liderada por William Hearst (o mesmo senhor que inspiraria o filme Citizen Kane) condenou Arbuckle aos olhos do público mesmo antes de este chegar a tribunal. A vítima sofria de vários problemas de saúde que acabaram por contribuir para a sua morte e Arbuckle tentara até, num momento em que Rappe teve um ataque lancinante, confortar dores e ajudá-la. Foram necessários três julgamentos para comprovar a inocência do actor cómico – conhecido entre os colegas como o tipo de pessoa de quem ninguém tinha uma ponta de mal a apontar – mas o mal estava feito. Uma mistura de capitalismo comercial jornalístico, circo mediático e campanha moralista contra a depravada Hollywood transformou uma acusação falsa num frenesim que acabou não só com a carreira, mas com a vida pessoal de um homem inocente. O que vale é que todos aprendemos esta lição e nada disto jamais voltou a acontecer, com estas acusações a serem lidadas com cautela e discrição… ou não.

#2 Woody Allen

Em 1992, na ressaca do azedo divórcio entre Woody Allen e Mia Farrow, surgiram acusações por parte desta última de que Allen teria abusado sexualmente da filha Dylan. A acusação ganhou contornos mais escabrosos quando o realizador, num golpe de pouca lucidez, assumiu uma relação com a filha de Farrow de um anterior casamento, Soon-Yi Previn. O julgamento que se seguiu foi um novo circo e se bem que a carreira de Allen não tenha saído verdadeiramente manchada (o realizador foi coleccionando nomeações ao Oscar até atingir, em 2015, o recorde na categoria de orgumento Original), a visão pública da sua obra sofreu com a polémica. Invariavelmente, actores que entram nos seus filmes são questionados sobre a possível hipocrisia de trabalharem com Allen e os seus fãs terão de carregar com acusações alheias só pelos seus gostos pessoais. O julgamento viria a dar Allen como inocente. O caso é tão complexo que os próprios filhos de Allen e Farrow se dividem quanto à questão. Apesar de tanto Mia como Dylan e o irmão Ronan manterem até hoje que tudo aconteceu, um outro irmão, Moses, acusa o trio de mentira e a própria Mia Farrow de criar uma acusação falsa para se vingar de Woody Allen. Sendo verdade ou não, no dia em que o realizador morreu, duas coisas aparecerão de imediato nos títulos de imprensa e uma delas será bastante desagradável.

#3 Bernardo Bertolucci

Estreado em 1972, The last tango in Paris abriu logo com polémica, tendo sido proibido em diversos países. O principal responsável foi uma famosa cena de soodmia entre os actores Marlon Brando e Maria Schneider, que faria regressar a aura maldita à obra de Bernardo Bertolucci quarenta anos depois da estreia. Schneider, numa entrevista declarou que a cena em questão não estava no guião e que tanto Branco como Bertolucci apenas lha anunciaram no dia da rodagem da mesma. Amaldiçoando o filme por lhe ter roubado a juventude, nas suas palavras, lançaria uma sombra sobre o actor com quem contracenou e o seu realizador. Da sua parte, Bertolucci defende que a cena estava no guião e o pormenor que deixou de fora foi o uso de manteiga. Alegou motivos artísticos, querer capturar uma reacção mais visceral por parte de Schneider. Anos mais tarde, uma entrevista em Espanha onde Bertolucci volta a falar do tema foi tratada como admissão de violação, mas tal, como muitas coisas nestes tipo de casos, foi apenas uma deturpação dos media para obter o efeito de choque (Bertolucci confirma o inesperado uso de manteiga, mas faz questão de negar que tivesse havido sexo real sequer ou que a actriz desconhecesse da existência da cena). Vittorio Storaro, director de fotografia no filme, confirma que não houve qualquer violação e que os jornalistas, mais uma vez, pegaram numa situação já de si condenável, manipulando a realidade para servir os seus propósitos.

#4 Bill Cosby

Se nos casos anteriores temos assistido a factos que são exagerados ou pelo esticados na sua realidade por parte da imprensa, o caso de Bill Cosby é o seu oposto, no sentido em que os crimes envolvendo o popular comediante eram conhecidos há muito. No entanto, porque Cosby é um santo de panteão no entretenimento norte-americano, tudo foi sendo varrido para debaixo do tapete. No entanto, sabe-se hoje que desde meados da década de 60 que Cosby, ajudado por drogas e álcool e até a mulher, violou ou aproveitou-se sexualmente de dezenas de mulheres. As situações são demasiadas para esmiuçarmos aqui, mas apesar de serem um segredo mal escondido, apenas em 2014, depois de um espectáculo de stand-up do comediante Hannibal Buress referir abertamente a situação, é que várias vítimas se chegaram à frente. Alguns dos casos, por terem decorrido há demasiado tempo, prescreveram, mas outros estão a ser julgados e continuarão no futuro. Cosby nega tudo, mas o número de vítimas continua a amontoar-se. De todos os casos aqui mencionados, este foi o único a merecer um comentário presidencial: Barack Obama, que concedeu a Cosby a Medalha Presidencial da Liberdade, escusou-se a condenar um caso ainda nos tribunais, mas aludiu que se tal fosse provado, era de facto violação e uma vergonha.

#5 Jimmy Saville

Talvez o mais embaraçoso e gigantesco caso desta lista. O motivo? Se em Portugal Saville é uma figura pouco conhecida, na Grã-Bretanha envolve um indivíduo que não só era um entertainer de televisão e rádio reverenciado, como também uma figura pública aplaudida por entidades oficiais e condecorado pela própria Rainha Isabel II. Em 2012, no entanto, a fachada que Saville construiu, a de um homem excêntrico mas bem disposto e afável, caiu, quando a Scotland Yard revelou que havia anos que investigava alegações de que Saville teria não apenas abusado de mulheres, mas também de crianças. O apresentador dedicava-se a iniciativas de caridade relacionadas com crianças, que não seriam mais do que um pretexto para angariar vítimas. Ao todo, a polícia estimou as vítimas em número de 589 ao longo de mais de 50 anos. Alguns destes casos ocorreram inclusive em hospitais. Durante anos, a BBC conhecia alegações e rumores sobre o assunto e mesmo quando confrontada com provas, decidiu encobrir os caso,s com alguma ajuda da família real britânica e do próprio Governo, devido à popularidade e perfil de exposição de Saville. O resultado principal foi uma quase amnésia em relação ao trabalho e honras de Jimmy Saville em todo o território britânico, mas o tamanho do escândalo e encobrimento dado a um predador sexual que, segundo se sabe, importava-se zero com as vítimas e tudo com o seu ego, criou um imenso mal-estar na comunidade televisiva do Reino Unido, aumentando a quebra de confiança entre os poderes estatais e os cidadãos.

#6 Klaus Kinski

Qualquer pessoa que tenha visto as obras de Werner Herzog onde Klaus Kinski é protagonista é incapaz de resistir a uma inquietação desconfortável quando o actor está em pleno delírio no ecrã. No entanto, tal não se pode comparar ao que sofreram as filhas deste actor alemão. Nastassja, a mais conhecida, acusou o pai de tocá-la de forma demasiado íntima quando esta tinha 5 anos e de se sentir aterrorizada pela personalidade volátil e imprevisível do actor alemão. Kinski devia saber uma ou outra coisa acerca de opções sexuais questionáveis, visto que chegou a namorar com Roman Polanski quando tinha 15 anos (ainda que esclarecesse que o realizador nunca foi para a cama com ela e sempre a respeitou…). Pola Kinski, também filha de Klaus, alega que o pai chegou memso a violá-la por várias vezes, entre os 5 e 19 anos de Pola.

#7 Pedofilia em Hollywood

Estreado em 2014, o documentário An open secret, de Amy Berg, expôs um dos segredos mais mal guardados do cinema norte-americano: pedofilia sistemática em relação a crianças actores por parte de executivose outras figuras cimeiras da indústria. O que tornou o filme relevante éa menção de nomes, como por exemplo o realizador Bryan Singer, embora sem nunca tornar demasiado explícita qualquer acusação directa. No entanto, estas actividades foram referidas repetidas vezes por jornalistas e também pelas prórias vítimas. Uma das mais conhecidas é Corey Feldman, protagonista de, entre outros The Goonies, Stand By Me ou The Lost Boys, este último com o seu grande amigo Corey Haim. Feldman repetiu-o em diversas entrevistas (numa em 2013, a entrevistadora chegou ao ponto de acusá-lo de tentar destruir o entretenimento norte-americano com estas conversas), mas o actor nunca desarmou, defendendo que embora ele nunca tenha sido violado, Haim foi-o, por várias vezes após festas onde se encontravam presentesz executivos e artistas e, nas suas prórias palavras, eram passados de umas pessoas para outras como se fossem mercadoria. A lei californiana impede-o de nomear os agressores, pois os casos prescreveram. Outros actores infantis à altura, na década de 80, como Elijah Wood ou Allison Arngrim, confirmaram que era rumor frequente o que se passava e Arngrim, inclusivamente, mencionou o nome dos dois Coreys como vítimas usuais. Curiosamente, há uma figura que Feldman nomeia como o seu salvador nestes tempos tumultuosos: Michael Jackson, com quem não só nunca teve problemas, mas também desconhece qualquer caso do género envolvendo o cantor. De qualquer maneira, é quase inconcebível que não haja um fundo de verdade nas situações descritas por Feldman, o que torna a sua asserção de que tudo isto ainda se passa actualmente ainda mais preocupante.

#8 Casey Affleck

Se acham que acusações de assédio sexual estragam a carreira de alguém, então deixem-me trazer algum esturro ao mundo perfeito que criaram. Casey Affleck é o exemplo de como se pode ter um fato manchado e ainda assim brilhar. Quando realizava o seu falso documentário I’m still here (lembram-se de Joaquin Phoenix a flipar e a dar em rapper? Esse mesmo), duas mkulheres que participavam na produção acusaram-no de conduta menos própria – propostas sexuais, uso demasiado liberal das mãos, deitando-se na cama com uma delas sem ser convidado e, classe, ordenando a todos os membros masculinos da produção que a certa altura mostram-se o pénis a ambas- e o caso foi a tribunal. Affleck negou tudo e o caso foi resolvido fora do tribunal. Seis anos depois, o passado voltou para morder Affleck no rabo, logo quando fora nomeado (e era o grande favorito a vencer) para o Oscar de Melhor Actor por Manchester by the Sea. Afinal, este fora o ano em que o filme Birth of a Nation, que parecia ser um dos grandes favoritos, se estatelou por um escândalo semelhante a envolver o realizador e actor principal Nate Parker. Nada que fizesse pestanejar os votantes no caso de Affleck, que venceu. Brie Larson, a actriz que por ter sido vencedora no ano anterior foi a escolhida para anunciar o prémio, foi questionada sobre o assunto e sem ser demasiado explícita, remete para a sua reacção em palco. Podemos vê-la distante, desconfortável. Há quem defenda uma separação da vida pessoal e do triunfo artístico; há quem tenha visto aqui um tratamento diferente pelo facto de Casey ser irmão de Ben, figura influente em Hollywood. Seja como for, não é caso único onde esta distinção é feita.

#9 Roman Polanski

Em 1977, Roman Polanski, à altura um dos realizadores mais populares no cinema americano, foi acusado de uma série de crimes que ainda hoje levantam polémica de mais de uma maneira. Entre eles, incluem-se a violação de uma rapariga de treze anos, Samantha Geimer, com auxílio de droga. Tudo decorreu numa sessão de fotografia entre Geimer e o realizador na casa de Jack Nicholson e no julgamento, a vítima contou como Polanski a embebedou para depois ter sexo contra a sua vontade, expressa oralmente. A Polícia, ainda assim, disse não ter encontrado qualquer prova de sexo não consensual e o advogado de Geimer aconselhou-a a  aceitar um acordo onde Polanski apenas seria acusado de ter tido sexo com uma menor. Polanski aceitou o acordo, que previa uma estadia de noventa dias numa clínica psiquiátrica. No entanto, uma conversa ilegal entre um advogado e um juiz, ambos com um ódio por Polanski e por comportamento libertino, levou a que o juiz, Lawrence Rittenband, considerasse ordenar a prisão de Polanski. O advogado do realizador iuviu o rumor e Polanski não esperou muito para fugir para a Europa. Desde então que Polanski tem andado fugido da justiça norte-americana e evitado países com acordos de extradição. No entretanto, ganhou um Óscar de melhor realizador por The pianist e mantém hoje o respeito de grande parte da comunidade cinematográfica. Negou sempre a violação, embora Geimer o mantenha: no entanto, a vítima argumenta que não há qualquer motivo para manter todo este circo de perseguição e o o crime só a ela diz respeito. Em 2006, Polanski foi preso na Suíça e os EUA exigiram a sua extradição; os Suíços, no entanto, voltaram atrás e soltaram Polanski. Recomenda-se a quem esteja interessado na complexidade do caso (do qual nunca se nega o acto deplorável cometido por Polanski) que veja o documentário Roman Polanski: Wanted and Desired.

#10 Alfred Hitchcock

Contou Tippi Hedren há uns dias, numa desabafo do Twitter e no seguimento do lançamento da sua auto-biografia, que Alfred Hitchcock a terá assediado sexualmente durante a rodagem de The Birds. Segundo Hedren, não foi nem o primeiro nem o último homem a fazê-lo durante a sua carreira de actriz. De súbito, a carreira de um ícone da Sétima Arte, falecido em 1980, parece ficar assim manchada. Não é a primeira vez que Hedren se refere de forma crítica a Hitch, mas é a primeira vez que faz esta acusação.No entanto, após a bombástica declaração nas redes sociais, historiadores e pessoas que participaram durante a rodagem do famoso filme protestaram contra esta teoria. Na verdade, documentos da rodagem mostram que as datas apresentadas por Hedren para os dias em que o suposto assédio aconteceu; para mais, Hedren alega que Hitchcok a ameaçou quando esta recusou os seus avanços – apenas para, duas semanas depois, lhe oferecer o papel principal em Marnie. Nunca qualquer pessoa viu ou sequer ouviu falar do incidente e lembra apenas Hedren não como vítima, mas como alguém que insultava constantemente quem estava no set. Talvez tudo isto pareça uma repetição de culpar a vítima, mas a realidade é que perante provas de crime ou facto e um grito numa rede social, o grito vence; e neste mundo de aparências e ficção, onde verdadeiros actos horrendos são enterrados, ignorados ou desvalorizados, o tweet de denúncia sem provas talvez seja o maior símbolo da maneira como lidamos não só com este problema mas com outros tão ou mais graves que afectam a sociedade actual.

 


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Bruno Ricardo

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