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Dez Takes 14: Os novos Capitães de Abril

por Bruno Ricardo em 15 Maio, 2017

Entre coronéis, generais e almirantes, posições elevadas na hierarquia militar, nenhuma é tão amada na Arte quanto o capitão. Está em todo o lado e fica mesmo no ouvido na hora de baptizar um personagem. Há Capitães no exército, na pirataria, nas minhas, nos campos de futebol, na indústria, na Polícia e na república de San Marino, o líder do Estado tem a designação de Capitão-Regente. A palavra tem origem grega (“katepano”) e aponta para “aquele que está no topo. Ainda que haja outras posições mais elevadas no exército, é inegável que se questionados sobre patentes militares, esta é a primeira que nos ocorre.

Ora, o Cinema tem nisto uma grande influência, recheado de capitães tão famosos que o seu nome até é conhecido do outro lado da galáxia. Na passagem de um mês em que celebrámos uma Revolução movida por um conjunto de capitães, e embora Salgueiro Maia não esteja nesta lista, o Dez Takes deste mês dedica-se a reunir uma equipa de capitães capaz de construir uma nova revolução que venha, por fim, cumprir o que a anterior prometeu. Mantêm-se as regras do costume (não repetir filmes ou realizadores, obras individuais) e com muita pena nossa, porque aqui há uma ideologia a respeitar, o Capitão Falcão de Gonçalo Waddington e, por arrasto, o Puto Perdiz, ficarão de fora. Que as acusações de “comunista” comecem a chover no meu e-mail! Ou tratando-se de um herói do Estado Novo, na minha caixa de correio.

#1 Han Solo, Star Wars (1977)

Jingão e carismático, capaz de entrar no Largo do Carmo e convencer os tanques a fazer piruetas. O Estado Novo foi marcado por contrabando e este mariola conhece os recantos da Galáxia como poucos. Porque é capitão? Ninguém sabe, nem andou no exército do que nos contam. Tem uma nave e um co-piloto peludo e portanto, ganho o direito de se chamar o que quer que fosse. Salgueiro Maia até o admira, mas nunca lhe disse. Não importa: ele sabe.

#2 Nemo (Príncipe Dakkar), 20 000 leagues under the sea (1954)

Ai não estavam a contar com um submarino ao largo ao Terreiro do Paço? Surpresa, palhaços! Nemo significa “ninguém” e é ao mesmo tempo todos nós na manhã de Abril. Escondido de um mundo do qual não gosta particularmente, é concebível que não pudesse com Marcelo Caetano nem pelos cabelos. Com o seu conhecimento do fundos dos mares, seria o homem ideal para finalmente dar uso à nossa zona económica exclusiva, sem que isso implicasse um amor assolapado por cagarras.

#3 Jack Sparrow, Pirates of the Caribbean: the curse of the Black Pearl (2003)

Um homem com um sonho e uma bússola avariada; há lá melhor metáfora para o cumprimento da utopia de Abril? Para além de ser o único dos nossos capitães com um estilo de moda que não destoaria da Colecção Primavera/Verão Quente, Sparrow representa como poucos o espírito português: desenrascanço puro, improvisar à medida que se avança e no fundo, a culpa não é minha, é da conjuntura. Lugar garantido num futuro governo cavaquista.

#4 Quint, Jaws (1975)

Obcecado com um inimigo exterior e amargo com uma situação militar do seu passado, Quint é o homem ideal para acalmar a ala militar que sente um revanchismo relativamente à Guerra Colonial. O seu famoso discurso acerca dos camaradas devorados por tubarões lançaria a festa do Avante num minuto de silêncio sentido, espontâneo e o seu desprezo por cientistas reaccionários dar-lhe-ia todo o direito à Pochette Dourada com que os grandes líderes do PCP sonham. Otelo babar-se-ia por este herói. Apenas não o levem a uma Assembleia Popular: o seu individualismo e instinto mercenários torná-lo-iam no réu ideal de cabalas cripto-fascista. Ter trabalhado com Spielberg significaria também execução sumária no Directório de Cinema do Público.

#5 Richard Phillips, Captain Phillips (2014)

Já cá faltava um americano a sério para impedir que o capachinho de Kissinger explodisse. O capitão Phillips é o homem vulgar apanhado em situações extremas e é, assim, um Capitão de Abril à séria. Quer criar entendimentos com negros (pontos bónus) e lidera um navio (mais pontos, sempre a crescer na portugalidade) com um grupo de trabalhadores (jackpot!!). Pode ser um americano puro, mas votaria Bernie Sanders. Com ele na embaixada em vez de Carlucci, os Açores teriam sido invadidos, mas Mário Soares ficaria com melhor imagem.

#6 Steve Rogers, Captain America: the first soldier (2012)

No entanto, nada temas, ó tio Sam! O Capitão América chegou. A dúvida está em qual das versões teríamos a por brilhar Lisboa fora, à frente dos tanques: no Cânone cronológico da BD, esta é a época de um Capitão desiludido com os ideais americanos; no entanto, a sua procura pela Justiça encontrará na PIDE o adversário perfeito. Com ele, Rosa Casaco teria um quarto especial na prisão e zero de tempo de antena com a Felícia Cabrita. Nenhuma das hipóteses é particularmente agradável, mas só de uma viria algo de bom ao mundo.

#7 Ben, Captain Fantastic (2016)

Um espírito livre, um auto-didacta, um líder de homens (ou pré-adolescentes). Sabe como viver no meio do mato  e isto é aconselhável caso a Revolução dê para o torto. Dêem-lhe uma faca e ele moverá o mundo. O seu aspecto é o de Viggo Mortensen, ou seja a ideia que os intelectuais de Esquerda têm de si mesmos.  A sua aversão a sistemas de saúde estatais coloca-o em rota de colisão com Salvador Arnaut, mas ambos ficam amigos em redor de uma discussão comparativa entre Kant e Esculápio. Se os chaimites avariarem, o nosso fantástico Ben apanha os camaradas de Salgueiro Maia de autocarro e deixa-os no Largo do Carmo. Este é um homem renascentista.

#8 Steve Zissou, Life aquatic (2004)

O Capitão Zissou acabará por passar o dia da Revolução algures no Barreiro, quando confundiu as coordenadas marítimas e deu com a sua equipa totalmente perdido. Na sua trupe, um baladeiro canta temas de David Bowie (portento da década de 70) com um desrespeito tal para com a fonte que só no ambiente descontraído de uma revolução tal se podia aceitar. No entretanto, Zissou sobre ao Cristo Rei para procurar em Lisboa os restantes colegas, mas sem encontrá-los. Quando Eanes toma posse dois anos depois, andará pela ponta de Sagres, julgando ser o cabo da Roca. Vale-lhe ser Bill Murray e fica, com os amigos, a viver numa comuna hippie no interior alentejano, o mais próximo da utopia de esquerda que estará. No fundo, ele representa-nos, perdidos nas nossas próprias obsessões de Abril.

#9 Clarence Oveur, Airplane (1980)

Entra com os Capitães no largo do Carmo, mas é totalmente proibido de duas coisas: distribuir cravos às crianças e tomar banho com os restantes magalas. E nunca, nunca o deixem contar histórias sobre ginastas ou gladiadores americanos. Apropriadamente, o aeroporto de Lisboa tomou este ano o nome de Humberto Delgado, general sem medo. Oveur será para lá despachado em voos para a 3ª idade.

#10 Capitão Gancho, Peter Pan (1953)

Com aquele guarda-roupa, precede numa década todo o estilo de António Variações. Está perfeitamente adaptado a Portugal, depois de ter passado tantos anos na Terra do Nunca. Afinal, o nosso país é o de uma série de nuncas: nunca aprende, nunca se remedeia, nunca sai da cepa torta e até este ano, nunca ganharia a Eurovisão. Salvador Sobral é uma espécie de Peter Pan, mas que quer voar com asas como a Sininho quando os braços parecem sair do corpo e ainda bem que só nascerá uns anos depois da Revolução. Até lá, este capitão poderá muito bem ser a grande figura do Verão Quente, porque como todos os camaradas mais revolucionários, é conhecido por ser de Gancho.


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Bruno Ricardo

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