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Dez Takes: Curiosidades de Óscares

por Bruno Ricardo em 22 Fevereiro, 2017

Fevereiro é mês de Óscares, amigos. E já sabem com o que têm a contar nas publicações cinéfilas por estes dias: injustiças, falta de diversidade, o valor intrínseco de prémios em Arte, o glamour… Lerão sobre isto tudo. Podia trazer opiniões no meu carrinho de mão, mas o Dez Takes deste mês, mesmo dentro da temática do carequinha dourado, será sobre a frieza dos números e dos factos: quão bem conhecem os Óscares? A cerimónia de prémios cinematográficos mais vista do planeta faz 88 anos em 2017 e já tem História suficiente para contar e por isso lhe dedicamos Fevereiro, num especial sobre coisas que se calhar não sabiam e até podiam passar sem saber, mas agora não há volta a dar.

#1 Como tudo começou...

Comecemos pelo início: em 1929, no Hollywood Roosevelt Hotel, procedeu-se à entrega de prémios a vários profissionais de Cinema num jantar, reunindo dois dos passatempos preferidos de Hollywood: auto-importância e pândega.

Foram quinze prémios, numa cerimónia com idêntico número de minutos. Inicialmente, os prémios eram anunciados nos jornais na noite dos prémios; no entanto, quando o LA Times se enganou e os publicou antes da cerimónia em 1941, a Academia adoptou o método actual – envelopes selados lidos numa cerimónia em directo.

Todos conhecem a tradição da origem do nome da estatueta (a tia de uma funcionária, chamado Oscar), mas quem inspirou a sua cara foi um actor mexicano chamado Emílio Fernandez.

Nesta cerimónia, a categoria de Melhor Filme teve apenas três nomeados e saiu vencedor Wings, um drama desenrolado durante a Primeira Guerra Mundial.

#2 The Oscar does not go to...

A História lembra sempre os vencedores, mas vamos parar um momento para recordar aqueles que lutam e lutam, mas nunca ganham. O maior derrotado dos Óscares é o já mítico Kevin J. O’Connell, técnico de som que saiu por 20 vezes da cerimónia de mãos a abanar desde 1983.

Este ano está nomeado pelo seu trabalho em Hacksaw Ridge e com a promessa de La La Land a limpar a noite, as suas perspectivas não são as melhores. No entanto, insistir compensa: Victor Young, compositor para Cinema, conseguiu a sua primeira vitória ao fim de 21 tentativas…

Nos actores, Deborah Kerr é a mais injustiçada: zero prémios em oito nomeações. Os filmes The Turning Point e The Colour Purple são os maiores derrotados colectivos: em 11 nomeações, venceram zero. E nunca esqueçamos Peter O’Toole, actor que em oito nomeações só conseguiu levar para casa uma estatueta honorária.

Nem entremos no sempre apetitoso tópico de filmes e pessoas que deviam ter ganho e não o fizeram…

#3 Glutões premiados

Na outra extremidade, temos os grandes vencedores e o maior de todos continua a ser Walt Disney: 59 nomeações, 26 prémios. Com ou sem criogenia.

A pessoa viva mais nomeada é o compositor John Williams, alguém de quem a Academia gosta mesmo: 50 nomeações, 5 vitórias.

Os filmes mais nomeados foram Titanic e All About Eve, no caso com 14 cada uma. La la Land igualou-os este ano. Titanic acompanha The Lord Of The Rings: The Return of the King como os maiores vencedores colectivos, com 13 Óscares cada um.

Em categoria mais visíveis, como as de representação, dois actores reinam supremos nas nomeações (Meryl Streep com 20 nomeações e três prémios nas actrizes; Jack Nicholson com doze nomeações e igual número de vitórias, distinção que partilha com Daniel Day-Lewis), mas a vencedora suprema entre estes continua a ser Katharine Hepburn, que na sua incrível carreira conseguiu ser distinguida quatro vezes!

#4 O que é estrangeiro também é bom

A categoria de melhor filme estrangeiro é uma das que mais interesse desperta fora dos EUA, porque tenta representar o que de melhor se faz no cinema mundial.

Itália é o país mais vezes premiado com 14 estatuetas, e França foi o mais nomeado com 63 nomeações. Fora da Europa, o Japão é claramente o preferido, com 4 vitórias em 60 nomeações.

Foi Frederico Fellini quem venceu mais vezes esta categoria, que só esteve presente desta forma desde 1957: antes, entregava-se um prémio especial de mérito fora de competição.

Em 1992, um filme uruguaio chamado Un Lugar En El Mundo foi nomeado, mas desqualificado, porque afinal era de produção argentina.

Acontece por vezes que um país nunca tenha ganho nesta categoria, mas vencido na principal. O caso mais óbvio é a Índia, que em 1982 ganhou Melhor Filme com Gandhi e no entanto, apesar de várias nomeações, nunca venceu esta.

Entre os países que nunca foram sequer nomeados, temos claro Portugal. Porque somos demasiados bons para esta choldra.

#5 O realizador manda

O grande controlador do Cinema é o realizador e a atentarmos nos Óscares, um nome eleva-se acima dos outros: William Wyler, com 12 nomeações só à sua conta.

O mais vencedor, no entanto, continua a ser John Ford, com quatro prémios só à sua conta. Muitos realizadores, se conseguirem fazer um filme que chame a atenção destes prémios, já se contentam; mas existem raros casos de quem recebe duas nomeações no mesmo ano. Apenas três realizadores têm essa distinção: Clarence Brown, Michael Curtiz e Steven Soderbergh.

Igual o número de profissionais que receberam este Óscar em dois anos consecutivos: John Ford, Jospeh L. Mankiewicz e Alejandro Gonzalez Iñarritu.

Apenas uma mulher venceu esta categoria: Kathryn Bigelow e nunca nenhum negro ou asiático a ganhou, apesar de quatro nomeações em ambos os casos.

#6 O talento não morre

Nem a morte consegue separar os profissionais do Cinema deste prémio: 16 pessoas venceram-no postumamente e este ano, inclusivé, existe um nomeado que já por cá não anda – August Wilson, o dramaturgo que é autor da peça Fences, origem do filme com o mesmo nome.

O caso mais recente, e famoso, foi o de Heath Ledger, em 2008, pela sua interpretação de Joker em The Dark Knight.

O personagem histórico que mais vezes levou a nomeações nas categorias de representação também está morto: é Henrique VIII.

Por vezes não é a morte que afasta dos prémios, mas a própria vontade das pessoas: os actores Marlon Brando e George C. Scott recusaram recebê-lo (embora Brando tenha aceite um no início da carreira…) e o argumentista Dudley Nichols fê-lo também, por motivos políticos.

#7 Isso aconteceu?

Às vezes acontecem casos curiosos. Sabiam que houve um actor a ser nomeado no mesmo em duas categorias diferentes pelo mesmo papel? Barry Fitzgerald conseguiu-o com Going My Way, perdendo em actor principal, mas ganhando secundário.

Em certas famílias, os Óscares são uma tradição. Que o digam os Newmans, que entre si têm 88 nomeações com ligações de sangue!

Existe também o caso do actor que foi nomeado mais vezes morto do que vivo: James Dean, uma vez enquanto vivia, duas depois de falecido.

Outra ocorrência estranha foi a aparição de Limelight nos Óscares de 1972. Nada contra a qualidade do filme: a questão é que foi feito vinte anos antes!

O motivo foi simples: à altura, o seu realizador, Charlie Chaplin, estava na lista negra de Hollywood e como tal, o filme não estreou nos Estados Unidos. Tal aconteceu no mesmo ano em que foi nomeado para melhor filme.

#8 Portugueses pelo mundo

E Portugal nos Óscares? Ora, já dissemos que nunca algum filme português foi nomeado. No entanto, a presença nacional nestes prémios já aconteceu através da nomeação dupla do director de fotografia Eduardo Serra: em 1998 por The Wings Of The Dove; e em 2003 por The Girl With The Pear Earring.

Há um recorde que ninguém nos tira: somos o país que mais vezes propôs filmes para a nomeação de melhor filme estrangeiro sem nunca tê-la conseguido: um total 33, desde 1980. Este ano, foi a vez de calhar a fava a Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira.

Apenas um “português” ganhou um Óscar na principal cerimónia: Spencer Tracy, que em 1937 venceu o seu primeiro Oscar de Melhor actor interpretando o pescador português Manuel em Captain Courageous. Já nos outros Óscares, da Academia de Ciência e Técnica, somos grandes: o nosso Carlos Mattos já venceu duas, pela sua contribuição para a parte tecnológica do cinema norte-americano.

#9 Os agradecimentos da praxe

Depois de ganho o prémio vem o discurso. Hoje em dia, os produtores das cerimónias são muito rigorosos com o tempo que cada um demora, portanto imaginem o ataque de pânico que teriam em 1942, quando a actriz Greer Garson retribuiu a amabilidade do prémio com um longo agradecimento de seis minutos!

O mais curto veio também de uma actriz: Patty Duke, em 1972, tomou o Óscar nas suas mãos e disse simplesmente “Obrigada!”, saindo de palco. A palavra mais dita é “Obrigado” – claro, e a segunda é “Academia”, para ninguém esquecer a mão que dá de comer.

A adrenalina da vitória leva alguns a fazer actores inesperados: Jack Palance, quando venceu em 1982, fez flexões de um braço em cima do palco, enquanto que em 2005, o uruguaio Jorge Drexler, que venceu o prémio de melhor canção apesar de não lhe ter sido permitido cantá-la na cerimónia, fê-lo quando recebeu o galardão.

#10 Últimos takes

Por fim, deixo-vos mais algumas curiosidades sobre os campeões definitivos dos Óscares.

O guionista mais nomeado? Woody Allen, com 16.

Oo produtor mais nomeado? Empate entre Scott Rudin e Steven Spielberg, com 9 cada.

A mulher mais nomeada? A responsável de guarda-roupa Edith Head, com 35 referências.

21 personagens por nomeados por duas interpretações diferentes, tanto personagens históricos (como, por exemplo, Lincoln) ou ficcionais (como, por exemplo, Vito Corleone – que conduziu às vitórias de Marlon Brando e Robert de Niro).

Como nem tudo pode ser uma competição de preto e branco, saibam então que por seis vezes houve empates em Óscares, a última das quais em 2013, na categoria de montagem sonora.

Quantas vezes desejámos nós dar um Óscar a cada pessoa na categoria e quantas mais ficaram de fora? Fosse a vida mais justiça do que competição e os prémios da Academia nem seriam os mesmos!


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Bruno Ricardo

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