Vista Chino

Peace
2013 | Napalm Records | Stoner Rock

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Há duas formas de ouvir Peace dos Vista Chino: sem ou com a etiqueta ‘kyussiana’. A primeira é difícil – tendo até em conta a própria promoção de Peace -, mas ainda assim possível e merecendo uma única conclusão. É um excelente álbum de desert-rock, ponto final.

O problema é que o público-alvo terá sempre em conta que Vista Chino não passa de uma reincarnação possível dessa banda de culto que terminou o seu percurso em meados dos anos 90, os Kyuss. Na verdade isso traz resultados ambíguos, pois se por um lado os Vista Chino já tinham fãs mesmo antes de lançarem este primeiro álbum, por outro, tal implica uma comparação injusta com a aclamada sonoridade que acabou por definir o stoner-rock.

Esta ambiguidade não seria tão notável se os Kyuss não fossem um caso peculiar na indústria musical. Estes californianos nunca venderam tantos álbuns quanto nos últimos anos, mesmo quase duas décadas depois de terem terminado, como é possível? A explicação até é simples. Enquanto o grunge e o metal lidavam com as suas épocas douradas, a comunidade de bandas próxima de Palm Springs via os seus riffs poeirentos a serem adorados por uma elite pequena e limitada. Os Kyuss tornaram-se os representantes máximos deste rock do deserto até Josh Homme e John Garcia – guitarrista e vocalista respetivamente – terem decidido tomar caminhos em separado. Múltiplos projectos pós-Kyuss se seguiram, iniciados pelos seus elementos, mas todos eles mantiveram a áurea anti-mainstream que só viria a ser abalada com o fenómeno Queens of the Stone Age. Estamos no início do novo século e a bem-sucedida banda de Josh Homme multiplica fãs sedentos por uma sonoridade grave e ‘fuzziforme’, tão setentista quanto maravilhosamente fresca.

Ora, foi uma questão de tempo até que os Kyuss passassem a ser uma marca estranhamente lucrativa. Mesmo sem o aval de Josh Homme, John Garcia reuniu Brant Bjork e Nick Olivieri, e sob o nome “Kyuss Lives!” percorreram o mundo tocando os hinos que fizeram de Blues for the Red Sun e Welcome to the Sky Valley obras-primas da música pesada. Soube a pouco, e um novo álbum começou a ser anunciado. O recente renascimento do desert-rock, que deve parte do seu pouco mediatismo à rivalidade entre Josh Homme e John Garcia, é o contexto perfeito para se entender o lançamento deste Peace. Questões legais obrigaram a uma mudança do nome do projecto, e ainda bem. Até que ponto os fãs gostariam que Peace fosse entendido como o quinto álbum de Kyuss? Que sentido faria ter Kyuss a compor sem Josh Homme? Seria como Supertramp sem Roger Hodgson, absurdo.

Os então denominados Vista Chino são agora compostos por Garcia e Bjork, que mantiveram na guitarra o muito profissional Bruno Fevery, e recrutaram ainda para o baixo Mike Dean dos Corrosion of Conformity. Peace é o resultado, e à primeira audição surge logo uma certeza: soa muito mais a um álbum de Brant Bjork do que a um álbum de Kyuss. Exceptuando a icónica Dargona Dragona e a epopeia Acidize? The Gambling Moose, que abre e fecha o álbum respetivamente, tudo o resto é desert-rock boogie, fluído, simples e dançante o suficiente para justificar a constante comparação com os primeiros trabalhos de Queens of the Stone Age, e a certeza de que Brant Bjork, que até canta em Planet 1&2, tomou as rédeas da composição.

É um álbum bastante descontraído, e de maneira nenhuma conceptual. John Garcia não está particularmente inspirado, sobretudo a nível da melodia vocal; os solos de guitarra, muito ao estilo de Homme nos últimos trabalhos de Kyuss, apenas marcam calendário; e o baixo só ganha protagonismo na instrumental Mas Vino. Apesar da estrutura das músicas não ter caído em facilitismos, é notória a ausência de ambição, mesmo na ‘hitesca’ Barcelonian. Obviamente que isso não tem de ser negativo, bastando interpretar Peace como um trabalho coletivo e acima de tudo honesto, independentemente do calibre dos seus autores. E honesto para com o desert-rock, que devia ser sempre assim: banda-sonora para uma longa viagem em asfalto fervilhante.


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura.

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