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Seiva

Seiva
2015 | Galileo MC | Folk Português

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Eis que do remanescente dos Daskarieh nos surge mais um projeto que promete ir beber às raízes tradicionais e apresentá-las com um twist moderno.

Os Seiva são Vasco Ribeiro Casais e Joana Negrão, duo que olhou para a zona beirã em busca de inspiração para o seu álbum de estreia. A missiva é o habitual cliché de reverência à musica tradicional e sua riqueza pueril, mas felizmente ela não se traduz na execução do álbum. É um caso interessante de desfasamento entre a intenção do “autor” – ou da pessoa que escreve as promos que nos chegam – e o objeto artístico.

Há que gostar do rótulo “tradicional”. Significa muito pouco se tivermos em consideração que o tradicional é uma invenção e música alguma é desprovida de raízes. Seiva, álbum homónimo, tem uma abordagem interessante, já que não tenta reproduzir uma ideia cristalizada da música beirã, antes assumindo-a como sendo passível de transformação, não colocando num pedestal os apontamentos musicais relativos ao género. Ao invés, eles convivem em pé de igualdade com riffs mais roqueiros. Não há uma tentativa de hibridização de culturas musicais porque se reconhece a tautologia do esforço: todas as culturas são híbridas. Oiça-se “Dura de Roer”, single de apresentação e melhor momento do álbum, que evita fazer uma mistura heterógena, ou mesmo “Por Deus” cuja utilização de samples nunca soa descabida.

Saúda-se a inclusão de “Azul” e de “Margaça” pela provocação que encerram. Isso da “identidade” portuguesa é capaz de ser muito importante e de certeza que a apanhámos por beber água canalizada, mas convém lembrar que não detemos o exclusivo do que faz da nossa cultura nossa. Se o tema faz lembrar música celta, é porque os Celtas andaram ocupados a disseminar o seu legado em grande parte da europa.

Seiva trata a folk portuguesa como um organismo vivo e não como um género anacrónico que precisa de uma actualização periódica porque é moda fazê-lo. Ignora o rótulo de “música tradicional” e cola por cima o de “música”, porque, parecendo que não, não há razão que sustente que não esteja na mesma categoria do blues, rock, pop, jazz, etc.

No entanto, não é isento de alguma condescendência, comum em homenagens. “Lá em cima o Castelo” acaba por soar mais a caricatura. Compare-se a “Nossa Senhora do Leite” para descobrir as diferenças entre o “ser” e o “dever ser”.

A questão da “identidade portuguesa” não tende a ser pensada na música feita por cá. Seiva, com toda a aparência de se querer fazer ao piso de uma identidade cultural, que, mais do que portuguesa, é regional, é no seu âmago uma declaração de que essa “identidade” é algo que construímos todos os dias e que nunca estará concluído. O resultado final deste disco de estreia não é nem mais, nem menos folk do que a sonoridade em que se inspirou.


sobre o autor

Jorge De Almeida

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