MENUMENU

Pedro e os Lobos

Um Mundo Quase Perfeito
2014 | Luckyman | Rock

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Para não fugir à norma, a abordagem a este Um Mundo Quase Perfeito foi feita com grande cepticismo e relutância. Não raras vezes, um trabalho feito de colaborações resulta num produto final inconsistente e esquizofrénico. O que a entidade – Pedro Galhoz – que dá pelo nome Pedro e os Lobos conseguiu fazer com este EP é excepcional nesse sentido. Aproveitando o que cada um dos artistas acrescenta ao pote, nunca fica a sensação de que se sobrepõe a sua personalidade à do disco. Num mundo quase perfeito, todas as colaborações seriam como as deste registo, maiores do que a soma das partes.

Num trabalho em que a “spoken word” se substituiu à melodia pop, a língua portuguesa é a convidada principal que acompanha Tó Trips, João Rui, António Ribeiro, Aldina Duarte e o artista anteriormente conhecido como Pac-Man, Carlos Nobre, no elenco de nomes que empresta a voz (e guitarra) à poesia lúgubre, mais blasfema que religiosa, urbana e por vezes pretensiosamente pós-moderna. Mas se “engana-me a morte meu filho mais que perfeito” é verso que escrito e cantado por João Rui em “Volta a Morte” merece aplausos, a faixa homónima de Um Mundo Quase Perfeito tem alguns desfavores prestados à língua. Uma letra a que não podemos apontar defeito ao conteúdo, fica maculada pela permeação da língua inglesa. “Realizei que minha mãe (…)” não é uma construção que admita o verbo realizar.

Fora estas picuínhices linguísticas, é de louvar o peso que as palavras adquirem nas vozes dos convidados. E já que estamos no assunto: Vamos falar sobre a voz do João Rui? Porque eu acho que devíamos falar sobre a voz do João Rui.

Quem já tenha conversado com o vocalista dos a Jigsaw sabe que não há razão para duvidar que se está a lidar com uma paz de alma de pessoa e tipo porreiro. Mas a voz que ouvimos em “Volta a Morte” leva a bicicleta para casa na categoria “Botas de cabedal e Harley Davidsons”. É pacto-com-o-diabo-fica-me-com-o-primogénito assombrosa e juntamente com a slide-guitar faz desta faixa o melhor de um álbum cheio de momentos interessantes e experiências bem sucedidas em misturar blues, fado e a ocasional bossa nova(?).

Tó Trips faz a melhor versão de si mesmo na faixa de abertura que não destoaria num álbum dos Dead Combo, Aldina Duarte está irrepreensível, Carlão – perdão – Carlos Nobre está em modo português suave e a entrega em “fomos feitos para comer, dormir cagar e foder” é melhor do que seria de esperar para uma frase feita. E vamos não ignorar que a voz feminina que o acompanha providencia um serviço a todos os que queriam saber como soaria a Manuela Moura Guedes de 1980 embriagada em hélio. Só António Ribeiro soa um bocadinho forçado e “O diabo sabe o meu nome” é o mais próximo dum momento fast forward.

É uma bonita alcateia a que se reúne neste Um Mundo Quase Perfeito. Cada um sabe o seu lugar e não se dá por egos a lutar por espaço. Não são as colaborações que fazem com que o álbum resulte, é o álbum que faz resultar as colaborações.


sobre o autor

Jorge De Almeida

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