Palms

Palms
2013 | Ipecac | Post-Metal

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Quando foi anunciada a união entre três membros dos extintos ISIS e o carismático vocalista dos Deftones, Chino Moreno, criou-se uma enorme expectativa nos fãs de ambas as bandas, e de todo um género musical. Estávamos perante a formação de mais um supergrupo, e sem que se conhecesse um único tema da banda, ergueu-se uma legião de fãs imaginando qual seria o som do quarteto. Uma das sugestões mais curiosas foi a de colocar um tema de ISIS num headphone, um tema de Deftones no outro, e ouvir em simultâneo. Não sabemos se alguém o fez, e qual foi o resultado dessa experiência, mas se juntassem o som dos últimos trabalhos de cada uma das bandas, certamente que o produto final não estaria longe daquilo que é o resultado do primeiro trabalho dos Palms.

O álbum, que conta apenas com 6 faixas, é uma união entre o que de melhor tem cada um dos intervenientes na banda. Ainda que se consiga identificar perfeitamente a influência de cada um deles nos diferentes temas, estamos perante um trabalho coeso, bem elaborado, e que corresponde às expectativas realistas que se podiam traçar para esta união. Desenganem-se os que esperavam um som novo, reinventado e inovador, porque aqui não há surpresas: há o melhor que o lado rítmico do post-metal tem para oferecer, misturado com a melodia etérea da voz de Moreno, numa combinação quase perfeita.

Aaron Turner e Stephen Carpenter não estão cá para sacar poderosos riffs de guitarra, nem para filigranas musicais, e isso talvez seja a única falha que se sente ao longo dos 45 minutos de música que compõem o “self-titled” dos Palms, mas não é pela falta de dois dos elementos mais criativos das bandas base deste supergrupo que se perdeu a essência do som que as caracterizou nos últimos trabalhos. Não está aqui representada a agressividade de um Around the Fur ou o peso de Oceanic, mas antes a fusão entre Koi No Yokan e Wavering Radiant.

Sente-se, desde o início de Palms, que é um álbum pensado para se ouvir de início ao fim, sem interrupções, e retirar um tema da ordem que foi escolhida é desconstruir irremediavelmente uma peça de 45 minutos, dividida em 6 actos meticulosamente separados.

Future Warrior” é a escolha óbvia (e perfeita) para abrir o disco. As influências dos 80’s que Chino tem vindo a colocar em prática nos trabalhos de Team Sleep ou de Crosses saltam ao ouvido, e por estranho que isto possa parecer na teoria (juntar os 80’s ao som dos ISIS), resulta bastante bem na prática. Em “Patagonia”, o segundo tema do álbum, há um crescendo, um pouco mais de densidade, a subida a um degrau mais alto de envolvimento da banda, e a consolidação daquilo que a primeira faixa tinha dado a entender: estamos perante um grande álbum.

Apostados em provar que no meio está a virtude, os Palms guardaram o seu melhor para a combinação “Mission Sunset” e “Shortwave Radio”, os dois temas centrais do álbum, e que possuem a maior variedade de ritmos e emoções de todo o disco. Há ritmo, há agressividade, há delicadeza, e há calma, tudo misturado da melhor forma possível.  As guitarras mostram mais virtuosidade, o baixo e a bateria estão num casamento feliz e duradouro, e até a voz de Chino Moreno é utilizada com mais arrojo, para pintar cenários mais coloridos sobre as telas de som consistente de Jeff Caxide, Aaron Harris e Bryant Clifford Meyer.

Tropics” é o anúncio do final, e o tema mais calmo (e curto) do disco. Depois da apoteose anterior, chega a tranquilidade em forma de tempos demorados e vozes mais doces, abrindo caminho para “Antarctic Handshake”, o tema final e aquele onde se sente uma maior clivagem entre a banda. Há uma divisão em duas partes distintas: o início poderia muito bem ser um tema de Team Sleep, e o final parece retirado de um dos últimos trabalhos dos ISIS. Não sabemos se está nos planos dos membros da banda um novo trabalho, mas se este Palms for o único registo do quarteto, ficou bem claro no final o que cada um dos lados da barricada trouxe para o grupo.

Palms é uma espécie de jornada introspetiva, sem nunca ser interrompida por momentos particularmente pesados. Não vamos ter cabeças a movimentarem-se freneticamente para trás e para a frente, mas é bem provável que se fecharem os olhos e se deixarem levar pela  progressão linear da melodia, sintam na plenitude o flow da música arquitetada pelos californianos. Por vezes perto da monotonia, o álbum salva-se sempre desse registo através da qualidade da escrita musical, e o que lhe falta em diversidade, sobra-lhe em talento. Se algum dia uma banda de post-metal pensou fazer um disco para se ouvir num final de tarde de verão, este seria com toda a certeza o resultado ideal.


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura.

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