MENUMENU

Medeiros / Lucas

Terra do Corpo
2016 | Lovers & Lollypops | Alternativa, Folk

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Os MEDEIROS/LUCAS são uma curiosa dupla de açorianos, mas cada vez mais uma certeza da música portuguesa. Carlos Medeiros, autêntico polímata, tem o dobro da idade de Pedro Lucas, mas nada que prejudique o conjunto – bem pelo contrário, muita da força da banda vem da conjugação de talentos e experiências de ambos. Aos arranjos de Lucas soma-se a voz de Medeiros; voz firme e de comando, terna e grave, de quem conta histórias dignas de atenção. Tal como com a voz de Leonard Cohen, a idade só melhorou a de Carlos Medeiros, em comparação com o que se ouve em O Cantar Na M’Incomoda (1998) e agora, em 2016.

Movem-se pela miscigenação entre a música tradicional portuguesa, influências estrangeiras e a procura de uma sonoridade só sua, algo que foi conseguido nos seus dois trabalhos de originais.

Com efeito, são dos projectos mais originais dos últimos anos, parte integrante da ascensão da música nacional a patamares raramente vistos. O seu álbum de estreia, Mar Aberto, editado no ano passado, foi mesmo dos grandes campeões do ano. A notoriedade e prováveis impulsos criativos levaram a que o sucessor, este Terra do Corpo, saísse já este ano.

Se em Mar Aberto andávamos pelas ondas, rumo à diáspora açoriana ou a avistamentos de cachalotes, com conchas e algas no regaço, como escreveu Vitorino Nemésio, em Terra do Corpo predomina o telurismo. A areia negra das praias açorianas (como a do Almoxarife, no Faial) dá lugar à terra vermelha e quente e ao verde da Lagoa das Sete Cidades.

O álbum conta com colaborações de qualidade: Selma Uamusse, Carlos Barretto, António Costa (Ermo), Tó Trips e Filho da Mãe. Se a ideia é obviamente enriquecer o trabalho, nem sempre o resultado soa da melhor forma, descaracterizando, até, o som-tipo a que os MEDEIROS/LUCAS nos habituaram logo em Mar Aberto. Mas não muito, tranquilizamos.

O início, com Sede, não é particularmente auspicioso, salvo pelo contrabaixo de Carlos Barretto e pela voz de Carlos Medeiros, que nos soa a um reencontro sempre agradável. Em Sístole Perdida entram em campo dois vultos nacionais da guitarra, Tó Trips e Filho da Mãe; o dedilhar habitual deste comanda a canção, que redunda num resultado convencional, salvo, novamente, pela letra de João Pedro Porto, pela já clássica voz de Carlos Medeiros e pelo rendilhado de Trips.

Com Transparência temos a primeira grande música de Terra do Corpo. Colaboração com António Costa (parte de outro grande duo nacional, os bracarenses Ermo), aqui tudo se conjuga: Lucas e a banda asseguram os sons e as vozes de Medeiros e Costa concluem o aludido cruzamento entre certa sonoridade tradicional nacional e desvios contemporâneos – ouçam-se os espigões electrónicos que pontuam de sobressalto a canção.

Em Corpo Vazio temos o aviso de Medeiros e Selma Uamusse, que bem poderia ter sido emitido na cave do Hot Clube. Arranjos com sopros num crescendo simples e com brio. Nova exaltação na apropriadamente intitulada Azougo: a voz de Medeiros nunca esteve tão viva no álbum e a banda acompanha-o com vivacidade, numa deriva de rock progressivo que engrandece o álbum e que empata com a última faixa na disputa pelo título de melhor canção de Terra do Corpo. Não se preocupem, que já estamos acordados, caros MEDEIROS/LUCAS, mas queremos que o final da canção se prolongue ao vivo.

Carlos Barretto regressa em Pulmão, para alguma curiosa experimentação que bem que poderia ser repetida em futuros trabalhos da banda. Quiçá a melhor letra do álbum.

O álbum termina com Fome de Vento, nova colaboração com Tó Trips e Filho da Mãe. É, ex-aequo com Azougo, a melhor e mais bonita canção de Terra do Corpo e uma das melhores canções nacionais de 2016.

Pelo que se ouve, é levada à letra a expressão “terminar em beleza”; a filigrana da guitarra entrelaça-se com a voz de comando de Medeiros, que declama que o corpo é para ser vivido, uma fome de vento traduzindo-se, quem sabe, numas saudades do mar e das ondas.

Tudo declamado no Ilhéu de São Roque, para Portugal e para quem mais quiser ouvir.


sobre o autor

José V. Raposo

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