MENUMENU

Lana del Rey

Born to Die
2012 | Interscope Records | Pop

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Eis que chegou um dos primeiros discos mais ansiados deste ano: o disco de estreia da norte-americana Lana del Rey, fenómeno polémico que já tem dado que falar. Adorada por muitos pelo trabalho que já tem vindo a mostrar, é odiada também por muitos outros, que a acusam de ser uma desprezível e falsa construção dos media que reflecte a falta de autenticidade que os valores consumistas da nossa sociedade promovem. Lana dificilmente conseguirá gerar consenso sobre a sua pessoa; desacredita-a a tentativa falhada de ingressar no mundo da música como Lizzy Grant, mas o que é certo é que a artista mudou o nome, melhorou a aparência a fim de se tornar um sedutor ícone do século XXI e triunfou como Lana del Rey. Não há grandes dúvidas de que este álbum que ontem chegou às lojas é o mais recente produto de marketing musical, e que a pessoa por detrás dele não é propriamente a mais admirável ou genuína (e quantos artistas o serão de facto?) – mas será que a sua música mantém a qualidade que nos tem vindo a habituar a auto-denominada “Nancy Sinatra versão gangster“?

O álbum inicia-se com a já bem conhecida do fãs “Born to Die“, que dá nome ao álbum. Uma música nostálgica e romântica, cuja profundidade e beleza da melodia e letra são inegáveis e se destacam na esfera musical. Começa aquele sentimento paradoxal que caracteriza esta artista: como podem estar valores tão desprezíveis por detrás de música tão bela e aparentemente genuína? É necessário estabelecer desde logo a diferença entre a artista e o seu trabalho – porque o seu trabalho é sublime. E a sua voz… a sua voz é admiravelmente bela. Não há como não nos deixarmos encantar por esta canção inicial e a sua mensagem poderosa de inevitabilidade da morte e do amor numa existência mundana, introduzindo-nos o tópico que irá ser abordado ao longo das restantes faixas do álbum.

Segue-se “Off to the Races“, que também já teria sido dada a conhecer aos fãs. Um ritmo mais dançante mas que perde a profundidade da primeira faixa. Depois de nos conquistar com “Born to Die”, este estilo que se aproxima um pouco mais do R&B e do Hip Hop, bem como um tom mais agudo da sua voz, parece não se adaptar tão bem na artista – ainda que se manifeste mais nesta canção a “versão gangster” como se descreve , esta é uma composição um pouco mais trivial.

As viciantes “Blue Jeans” e “Video Games” recuperam a qualidade de “Born to Die”, e sobre ambas as faixas não há muito a dizer senão geniais – ou não tivessem lançado Lana del Rey o ano passado como uma das grandes revelações de 2011, colocando-a em padrões de qualidade elevados. Fugindo aos clichés de amores perfeitos e invejáveis, são músicas sobre romances obscuros e complexos mas poderosos e intensos, que nos enchem a alma sem necessariamente a confortarem. Não se busca a perfeição simples das habituais músicas românticas – mas um universo mais genuíno e verdadeiro, mais humano, mais real… e com sucesso.

Com “Diet Mountain Dew” regressa-se a um registo mais dançável, desta vez mais conseguido que “Off to the Races”. A voz melhor colocada, o acompanhamento instrumental também melhor integrado contribuem para tal. Ainda assim, não consegue marcar como as canções anteriormente referidas – esta é uma pop mais banal, sem o carácter profundo que destaca músicas como “Blue Jean” ou “Video Games” ou mesmo “Born to Die”. O mesmo acontece em “National Anthem” – as letras que anteriormente surpreenderam parecem agora repetir-se ao longo do disco, como se o feixe de criatividade tivesse sido demasiado curto para um álbum inteiro.

Já em “Dark Paradise” os padrões de qualidade elevam-se um pouco de novo. Entre a obscuridade sobre a qual canta, surge o brilhozinho que a destaca e a canção consegue envolver-nos emocionalmente. Ressurge o romance viciante que quase nos enlouquece de “Born to Die”, envolvente, intenso, numa melodia poderosa. A belíssima “Radio” é das melhores do álbum – das que ainda não conhecíamos previamente – e dá continuidade a esta qualidade, mostrando-se evidente uma preocupação em manter o álbum uno. Os temas abordados vão evoluindo, o melodrama parece esbater-se. Porque depois de cantar “I’m scared that you won’t be waiting on the other side”, Lana canta agora “Boy I’ve been raised from the dead […] I’ve finally found you”. O amor que consumia as canções de forma doentia apresenta agora traços mais felizes e radiantes, não obstante que uma descontextualizada e banal “Carmen” contradiga essa evolução e nos desiluda com apenas mais do mesmo – e uns forçados versos cantados em francês.

Na recta final o disco explode com uma bela nostalgia. “Million Dollar Man” não surpreende minimamente, mas “Summertime Sadness” já nos consegue prender uma última vez com a sua nostalgia ritmada de final de Verão que cai tão bem mesmo neste frio Inverno, bem como “This is What Makes Us Girls“, um hino mais teen, acabando o álbum em beleza com músicas que ficam no ouvido e fazendo-nos esquecer pontos mais baixos como “Off to the Races” ou “Carmen”.

A versão Deluxe presenteia-nos ainda com três faixas extra: “Without You“, “Lolita” e “Lucky Ones” – músicas agradáveis mas que não surpreendem. “Without You” continua o mesmo registo explorado e aprofundado ao longo do álbum, não lhe adicionando nada de novo;  “Lolita”, mais arejada, não resulta muito bem; e “Lucky Ones” tinha potencial para ser muito mais do que de facto é – a composição vocal e instrumental simplesmente não triunfa.

Em última análise, não se pode dizer que o álbum de estreia de Lana del Rey desilude. Uma pop obscura situada entre Florence + the Machine e Zola Jesus, com ocasionais influências de hip hop, a artista possui uma maravilhosa voz acompanhada por bons arranjos orquestrais que a suportam. É um álbum simples e coeso, ainda que as letras depressivas, as melodias misteriosas e o registo intimista acabem por se tornar um pouco repetitivos – não o tornando numa genial obra de arte. Ainda assim, é composto por boas canções e consegue envolver emocionalmente – como só a melhor arte o sabe fazer. Lana del Rey pode ser acusada de falta de autenticidade – mas é o seu trabalho a ser avaliado, e quanto à música que faz, há que lhe conferir bastante valor. Born to Die não sendo soberbo, é um bom álbum e vale a pena ouvi-lo.


sobre o autor

Arte-Factos

A Arte-Factos é uma revista online fundada em Abril de 2010 por um grupo de jovens interessados em cultura. (Ver mais artigos)

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