MENUMENU

Deep Purple

inFinite
2017 | earMUSIC | Hard rock

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Se eu quisesse estar aqui a apresentar os Deep Purple ao público, dá-los a conhecer, teria que o fazer em tom de piada. São dos grandes dinossauros, um dos mais lendários nomes de todo o hard rock, que já levam um “mísero” meio século de carreira. E com estes anitos na bagagem, e tendo em conta que não tiveram uma carreira curta ou deixaram coisas por fazer, também já se justifica que a banda se atire agora à estrada para a “Long Goodbye Tour”.

Com esta longevidade toda e com vários clássicos feitos e guardados no tempo, fica só a questão: será que ainda necessitam de lançar novos discos? A resposta geral é não, é possível que o público já não sinta essa necessidade, mas o facto de o fazerem, porque podem e querem, também não nos causa constrangimento nenhum, e é bem-vindo. E se tudo correu bem com Now What?!” de 2013, este “inFinite” vem mostrar que os velhotes ainda se sabem divertir e fazer umas boas malhas de hard rock à antiga sem soar a uma paródia de si próprios.

Claro que só um tolo esperaria que ainda desse para fazer mais um “In Rock” ou outro “Machine Head” e muito dificilmente viria agora uma nova fase de recriação com um novo “Perfect Strangers”. A idade também já pesa nalgumas coisas e a voz de Ian Gillan é uma delas, apesar de ainda ser impressionante e reconhecível, não se pode esperar que o actualmente septuagenário soe exactamente igual aos tempos de quando cantou a “Black Night” pela primeira vez. Também os riffs simples reproduzidos para a eternidade estão todos feitos há décadas atrás e ninguém se vai lembrar de outra simples combinação de acordes, instantaneamente reconhecível, que sirva para as primeiras práticas na guitarra de um principiante. Ou seja, não há aqui outra “Smoke on the Water”.

Todo este “inFinite” é hard rock de cariz blues, no seu estado mais puro, tudo bem encharcado nas teclas que sempre foram um ponto fulcral na música dos Deep Purple. E não, já não há Jon Lord entre nós e já ele não tocava na banda um tempo antes de partir. Mas há Don Airey, um estupendo substituto que consegue ser uma das principais figuras de destaque neste quinteto, onde por muitas vezes são as teclas que mais encantam.

Continua igualmente a existir o lado progressivo que situou bem os Deep Purple na década de 70 e foi capaz de os colocar ao lado de nomes da rockalhada mais directa, assim como de nomes mais complexos e teatrais do boom do prog rock. Bom exemplo disso é “The Surprising”, faixa de destaque e notável pelos seus devaneios ambientais, solos e, lá está, o destacável trabalho de teclas de Airey.

Trazem o seu som de assinatura e trazem-no com boas canções, não apenas a cumprir parâmetros por cumprir. Talvez se estranhe a introdução de “Time for Bedlam” a recorrer a uma voz robótica para abrir o disco e alguns registos linguísticos mais explícitos e juvenis como em “Hip Boots” ou “All I Got Is You”, mas nada impede esse trio de entrada de ser um conjunto de belas malhas, algumas das melhores deste disco. E ainda há “Get Me Outta Here” e a sua conclusiva frase “See ya’, suckers”, que até parece algo despropositado para uma banda que pode mesmo estar a despedir-se de nós, mas que não deixa de lhe acrescentar um tom mais juvenil sem ser desadequado. Ainda para mais com as várias despedidas que Gillan vai declamando antes, em várias línguas, chegando mesmo a rematar com um “bom fim-de-semana”, assim mesmo, no nosso Português.

Um dos pontos menos bons é o da música que encerra o álbum. A banda optou por fechar com uma cover de “Roundhouse Blues”, dos The Doors, e é sempre um risco pegar num daqueles hinos clássicos. Fizeram-no de uma forma bastante simples e directa aqui e o que fica para discussão é se seria mesmo necessário. É verdade que não estorva ninguém, mas também não acrescenta muito a este disco, podendo até ser vista mais como uma faixa bónus.

inFinite” não deixa de ser um bom disco e mesmo que não venha renovar ou acrescentar grande coisa à discografia da banda, acaba por marcar bem o seu lugar. Se realmente se despedirem de nós e, para além de uma última digressão mundial este for igualmente o seu último álbum, fica um ponto final jeitoso e um sentimento de dever cumprido. E os nossos agradecimentos vêm logo a seguir.


sobre o autor

Christopher Monteiro

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