MENUMENU

Biffy Clyro

Opposites
2013 | 14th Floor Records | Rock

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Os Biffy Clyro começam 2013 a lançar “Opposites”. Seguindo a lógica de que a banda afirma ver os seus álbuns como grupos de três, este será o último de uma trilogia. Possivelmente a trilogia de anthem rock que iniciaram no primeiro passo repleto de ambição que foi “Puzzle” em 2007. Uma ambição muito tímida se compararmos com o passo arriscado que é lançar “Opposites”, um álbum duplo: algo que dá em estabelecimento do legado de uma banda ou em suicídio profissional.

Para trás já vão os dias de pós-hardcore em que o trio Escocês escrevia canções como “Glitter and Trauma” ou “There’s No Such Thing as a Jaggy Snake” – dias que alguns fãs recordam com saudosismo – e agora permanecem focados em escrever canções de estádio que não só se baseiam em melodias inesquecíveis como também procuram refúgio em sentimentalismo e alguma raiva emotiva. Souberam como manter atenção neles e até ganhar mais alguma.

Atenção é a palavra-chave neste disco. É um álbum duplo, vale a pena lembrar, há que saber como manter a atenção durante dois CD’s, durante 20 canções, durante quase uma hora e meia sem aborrecer e sem meter chouriço capaz de transformar um registo musical numa charcutaria. E para ser sincero, se há banda dos dias actuais em quem confiava a tarefa de manter o interesse num longa-duração deste calibre, uma delas seriam os Biffy Clyro. À primeira hão-de parecer uma banda genérica – e assim o serão para muitos – mas há mais no núcleo da banda do que apenas um som de banda de rock moderno com balanço entre o “meio pesado” e o acessível. Há mais e não é só o sotaque carregado Escocês de Simon Neil. O principal que mantém a dita atenção neste disco é uma marca melódica própria, com um selo de Biffy Clyro e um experimentalismo subtil que cria distinção e variedade entre as faixas.

O conceito do álbum baseia-se num ying-yang de emoções. O primeiro disco é o lado mais negro e negativo, algo que Simon Neil já está habituado a abordar. Tem inspiração nos problemas internos da banda, que os chegou a alarmar e deixar a pensar que poderiam atingir o seu fim, a exaustão das digressões constantes e consequente alienação de família e amigos, o problema de alcoolismo do baterista Ben Johnston, etc. Uma forma negativa de olhar para as coisas é o que predomina no primeiro disco. O segundo é mais airoso, é o entrar de luz, positivismo e a concentração no futuro a fintar os problemas, possivelmente inspirado pela capacidade da banda assentar e preparar este disco. Esse é o conceito básico porque aprofundando, o que não falta são oscilações de humor, mérito da variedade estilística que se encontra nas canções mesmo que o fio condutor ainda seja o de canções directas. É directo mas é diverso.

“Different People” é a introdução ideal para nos lembrar a banda que estamos a ouvir; “Black Chandelier” já tem o seu lugar ao lado de outros singles de assinatura da banda que são ansiados ao vivo para serem cantados a pulmão cheio; “Sounds Like Balloons” se não for single no futuro tem potencial para ser entoado em estádio com a mesma força como se fosse; “The Joke’s on Us” soa a uma prima afastada dos Foo Fighters mas de forma agradável; “Biblical” podia ser “aquela música que parece toda sentimental por ter arranjos orquestrais” mas quando não nos sai da cabeça apercebemo-nos de que é mais que isso; “Little Hospitals” e o seu riff pouco ortodoxo – marca de Simon Neil – é das canções que mais facilmente passaria por algum tema perdido dos álbuns mais antigos; “Stingin’ Belle” lembra-nos a origem da banda com uma valente dose de gaita-de-foles a juntar-se ao arraial de guitarra que para lá vai; Há direito a um pouco de mariachi em “Spanish Radio”; “Woo Woo” pode-nos surpreender no início ao fazer parecer que alguma música dos Klaxons veio aqui parar; Até há uma experiência electrónica em “Skylight”. E se estiverem com disposição para desfrutar do lado baladesco do colectivo que não teve medo de o expor em “Machines”, “God & Satan”, “Folding Stars” ou na mais infame “Many of Horror”, há aqui mais em “Opposite”, “The Thaw” ou “Trumpet or Tap” – esta última uma das coisas mais diferentes que a banda já fez. E não só, apenas a enumerar algumas canções, porque há aqui muita coisa para manter o interesse. Ou para voltar à palavra-chave, para manter a atenção.

Foi um passo arriscado mas fica o sentimento de que foi bem sucedido. Para trás já vão os tempos do “Blackened Sky” ou do “The Vertigo of Bliss” mas os Biffy Clyro já deram a entender que são uma banda que se não sentem que estão a evoluir, não sentem que vale a pena andar aí sequer. E nem são dos que avançam devagarinho, estes olham bem para cima. Mas os desgraçados sabem que até têm a capacidade para trepar…


sobre o autor

Christopher Monteiro

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