MENUMENU

Basset Hounds

II
2018 | Pontiaq | Jangle pop, psych, dream pop

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Nos últimos dez anos, por cá e lá fora, não têm faltado bandas que vão pilhar tudo o que é recanto do post-punk e afins, em pilhagem de nicho; umas melhores do que outras, só têm sobrevivido as que mudaram o tempero e mantiveram a qualidade ao vivo, num panorama de certa estagnação. Não é esta a graça dos Basset Hounds, banda de Lisboa que nunca parou a evolução.

Formados há coisa de sete anos e estreados ao vivo em 2012 (e apadrinhados pelos Juba), os Basset Hounds (António Vieira; Miguel Nunes; Afonso Homem de Matos; José Martins) têm vindo a construir a sua oikos em forma de opus tentando sempre o difícil equilíbrio entre manter a independência artística (na qual se inclui não andar com cliques cuja relevância se esfuma em menos de um punhado de anos) e fazer passar a sua obra para o público interessado – e simplesmente conciliar o negotium da vida com o otium da música. Entre um guitarrista-causídico (António Vieira) que é dos bravos que, à custa dessa vida, vive a duzentos à hora e um baterista (Afonso Homem de Matos) que andou feito Fernão Mendes Pinto (até se lhe assemelha) e Coronel Kurtz em busca de uma Ayutthaya, o pousio artístico foi pontilhado por actuações aqui e ali – antes que a ferrugem se instalasse.

Num ápice passaram três anos desde o seu disco de estreia (e da festa de lançamento, que contou com um certo colectivo de valdevinos eurodançantes) eis o seu sucessor, o sempre difícil segundo álbum. Cheios dos Deuses dos pedais e com a colaboração de André Isidro (Tekuno; nos sintetizadores), Francisco Menezes (saxofone) e Luís Grade Ferreira (trompete), aparentemente não temiam o que aí viria.

Soco à falsa fé, Condor rebenta com o saxofone a dar imediatamente lugar a um brilhante diálogo guitarreiro, reentrando aquele numa melodia bisonhamente bela; Nunes encima com uma letra que bem traduz a montanha russa emocional que são muitas noites passadas a dois e em dança de corpos e intimidades. Uma das melhores canções do ano, com expletivo e toda a propriedade.

Se os riffs e melodias e ritmos de II apontam para um respirar fundo de sol e vida, as letras de Nunes traduzem um íntimo cheio de dúvidas e contradições dos protagonistas; Arta é disso exemplo: a fuga da luz para pairar que nem um condor sobre a felicidade da relação. Resfolegar sóbrio de uma abertura ímpar, com umas lembranças de Television e Chameleons, com aquela palheta de Marr sempre presente e, claro, um saxofone que matura o conjunto.

No seu primeiro álbum residia uma enérgica, simples e magnífica canção à Shop Assistants (ou Pastels) chamada Swallow Bliss, que tem em Thin Age a sua sucessora (não deixem é de tocar a primeira ao vivo, se fizerem favor). Homem de Matos acelera os tempos e os outros Bassets acompanham, numa dream pop cavalgante – uns Corpo Diplomático por outras vias. “I’d do it again”, canta Nunes; de facto, conseguiram repetir o espírito de uma bela malha.

Aqui chegados, concluímos que o exame do segundo álbum estava a correr bem aos Bassets. A banda é de ouvido curioso, gosta de jogar com os efeitos como Bill Walsh jogava com os seus receivers e em Limbo bem ouvimos essa mescla: em notas de Felt lideram Vieira e Nunes a carga, coadjuvados por um saxofone de óptimo gosto. O protagonista é que, coitado, não tem mesmo descanso na luta quixótica pela estabilidade emocional.

Em Ahab lança-se ritmicamente o arpão a uma certa banda de Minneapolis e à primeira canção de um certo trabalho seu de 1984, com solenidade, sensualidade e ginga. Uma piscadela de olho aos Falecido Alves dos Reis e a Steve Gunn e à sua Ancient Jules (com uma êxtase própria de Eagles campeões do Super Bowl) em Ouroboros, cujo protagonista vive entrevado entre a mentira e o desejo de liberdade.

Se não era suposto ser interlúdio, Velvet bem o pode ser: é porreiro assistir ao tralho de Annie. que tem um braço partido e quiçá o coração no mesmo estado, como o protagonista de Zen Arcade de outra enorme banda do Minnesota. Sif bem podia ser a banda sonora de um regresso a casa (a outro poiso qualquer) depois de uma noite atribulada – mas bem passada. Exultante na sua dimensão, deixaria quer Curtis Mayfield quer os Byrds curiosos (ou os nossos Ocaso Épico), com os sopros caminhando lado-a-lado com as guitarras de Vieira e Nunes, por entre ruas delimitadas por gaioleiros de janelas amplas e com a mesma iluminação nocturna de há cem anos, em demanda às estrelas (nunca esquecer que astrologia é lixo) por respostas às interrogações da alma.

Texturas que remetem para Midori Takada – em vez do sonho do Sr. Henri Rousseau, o sonho do Basset? – e as melodias que são já o (rico) ADN da banda, em saudável ponte entre épocas. Um desfiar de ideias com mais músculo do que na estreia e sem peneiras nem pretensões, mas sempre com ambição.

Com Babar se termina esta iteração artística dos Bassets. Decerto que o Babar propriamente dito, após o massacre da família, também se perguntou o que haveria para além da vida – nós por aqui só nos perguntamos qual será a próxima paragem no caminho dos Basset Hounds. Tudo no sítio para um excelente fecho de álbum (e de concerto); com agilidade se passa de um diálogo melódico digno de uns Croix Sainte para as raízes shoegaze da banda, numa quebra de fazer ondear pescoços antes de mandar toda a gente para casa de alma lavada e feliz (e suada) com as altitudes a que o conjunto chega, com throttle bem à frente. Lamento, Bassets, mas depois de um voo desses ninguém cai – nem sequer o Babar se andar armado em Dumbo.

Correndo o risco de vaticinar que os Basset Hounds são uma banda subvalorizada, conclui-se que II é um bem-vindo salto para paisagens que já se vinham adivinhando, com a vantagem de que quem executa sabe o que faz (Homem de Matos e Martins são uma das melhores secções de ritmo que para aí anda, ponto final) e tem um ouvido curioso. Isto sem ser, bem, uma ouroboros enfiada num circle jerk de mediocridade, mas sim uma sonoridade que, bebendo do passado, vai desembocar num digníssimo representante do jangle-psych-dream pop-com-saxofones-e-uns-efeitos-à-maneira de topo nacional.

E não, não é apenas música de Verão, por muito que Aljezur corra no éter da banda, pois que, pedindo emprestada a merenda a outro grande artista nacional, quer com frio quer com calor podemos pegar em II e numas batatas, nuns douradinhos, num Bongo e uns bolinhos, numa sandes de carne assada e num rissol e que a distorção nunca caia.


sobre o autor

José V. Raposo

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